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A terra sonha em ser oceano

Em sua ficção poética, de “Gaia sob o mar”, Linei Matz reinventa o mundo a partir do feminino, do coletivo e das águas que nos atravessam 


Sobre o livro e a construção do universo


TEXTUARIA - Gaia sob o Mar apresenta um universo submerso bastante singular. Como surgiu a ideia desse mundo e quais foram suas principais inspirações para construí-lo?



Linei - Gaia é um planeta quase todo coberto pelo mar: criar um mundo novo no continente fica um pouco mais difícil, especialmente depois do Filhas de Gaia, que tem suas habitantes em um vale onde acontece toda a ação. Já no primeiro livro, fala-se em vários momentos sobre um povo que vive em um vulcão ativo. A ideia era expandir aquele universo do Filhas para onde era possível: para dentro do mar. E depois observar como as interações entre esses dois mundos acontecem.


TEXTUARIA - O Mar Borealis abriga uma sociedade com características muito próprias. O que você quis explorar ao criar esse povo que respira debaixo da água?


Linei - Me inspirei em um romance histórico de Lisa See, The island of sea women (a ilha das mulheres do mar) que conta a história de uma comunidade na ilha de Jeju na Coreia do Sul, na qual as mulheres buscam alimento cada vez mais longe e mais fundo no mar. Sua capacidade de ficar longos períodos de tempo debaixo d’água era impressionante. Com o Gaia sob o Mar, quis testar essa possibilidade de haver pessoas que respiram debaixo d’água interagindo com outras do vale e descobrir o quanto esses dois universos ainda têm em comum.

 

TEXTUARIA - Mesmo sendo uma continuação de Filhas de Gaia, o livro pode ser lido de forma independente. Como foi o desafio de equilibrar continuidade e autonomia narrativa?


Linei - No início do livro há um mapa da região e uma lista de personagens com suas funções e relações com as demais. Além disso, sempre faço uma breve descrição de cada uma delas no decorrer da história para situar quem a lê. A linguagem mais poética faz o restante da mágica. Acredito que dessa forma fica perfeitamente possível ler o Gaia sob o Mar sem ter lido antes o Filhas de Gaia, mesmo que seja sempre interessante ler os dois romances.

 

TEXTUARIA - A presença de elementos como o campo magnético de Gaia e ameaças espaciais aproxima a obra da ficção científica clássica. Como você articula ciência e imaginação na sua escrita?


Linei - Quando se fala em Ficção Científica, o que geralmente vêm à cabeça são filmes como Star Trek, Alien – o oitavo passageiro, a Guerra dos Mundos. Eles contam histórias de guerras pelo poder ou de aliens dispostos a destruir a humanidade.

Minha intenção era contar uma história usando uma linguagem mais poética, com coisas que poderiam acontecer aqui na Terra, cenas do dia a dia mesmo, pontuadas por outras mais decisivas, sempre focando nas relações entre as personagens. Além de ter optado pelo subgênero Hopepunk – FC que oferece uma visão de esperança à humanidade.

O campo gravitacional oscilante e a ameaça quem vem do espaço sideral são um plus para a história, algo que impulsiona a ação, mas não a parte mais importante.


Temas centrais: meio ambiente, sociedade e poder


TEXTUARIA - A obra traz uma forte preocupação com o meio ambiente. Em que medida essa pauta dialoga com o nosso mundo atual?


Linei - Gaia foi adaptada por máquinas – as autômatas com consciência humana – que chegaram lá quase mil anos antes. Isso deu uma “acelerada” no processo natural de nascimento de florestas, cianobactérias no mar para a produção de oxigênio, na formação de uma atmosfera respirável entre outras coisas, que a Terra levou bilhões de anos para formar sozinha. Mesmo assim, as Filhas de Gaia trabalham constantemente para manter o ambiente habitável, por isso sua formação cientificista e sua visão holística do mundo, na qual tudo está interligado.

Somos parte da natureza. Se não a respeitamos, se a destruímos pensando que ela sempre se regenerará, estamos destruindo a nós mesmos.

 

TEXTUARIA - O sistema matriarcal presente tanto em Terra Firme quanto em Gaia sob o Mar propõe uma organização social diferente da que vivemos. O que você busca questionar ou propor com isso?


Linei - O grande responsável pela destruição do ambiente é o sistema patriarcal, implantado há mais de cinco mil anos e que prega o individualismo e o ganho a qualquer custo. Antes dele, há evidências arqueológicas de que a maioria das sociedades no sul da Europa, na Ásia e na África viveram sob o regime matriarcal por pelo menos trinta mil anos.

Nesse sistema, uma deusa é sempre a figura central, pois o feminino é honrado e posto no centro da vida no cotidiano e nas grandes decisões. Ele é visto como símbolo da fertilidade e criador da vida. No matriarcado havia homens liderando também, mas as hierarquias e a propriedade privada não existiam. E são esses os grandes problemas do sistema atual.

 

TEXTUARIA - O livro também critica estruturas patriarcais. Você vê a ficção científica como um espaço privilegiado para esse tipo de reflexão?


Linei - Como disse uma vez José Saramago, “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. A ideia era tomar distância de nossa vida cotidiana para realmente vê-la, tanto em seus pontos negativos quanto positivos. E, depois de ler o romance, voltar à realidade com outros olhos para conseguir mudar o que precisa ser mudado.

A Ficção Científica oferece essa possibilidade: você observa um povo que vive pacificamente em outro planeta, por exemplo, mas que tem tantos pontos em comum com nossa sociedade, que fica bem mais fácil acreditar que podemos melhorar.

 

TEXTUARIA - A ideia de bem comum aparece como eixo central da sociedade que você constrói. Você acredita que esse conceito ainda é possível no mundo contemporâneo?


Linei - Com certeza. Muitas pessoas pensam dessa forma “fora da caixinha”, pois já vivemos assim milhares de anos antes. É parte de nosso inconsciente coletivo, como Jung diria. E se eu penso no bem das outras pessoas, alguém com certeza vai pensar no meu também. A nossa força como espécie está na ação em grandes grupos, não no indivíduo.

 


Personagens e jornada


TEXTUARIA - Óriens tem uma missão de grande responsabilidade: salvar o planeta. Como você construiu essa protagonista e quais aspectos dela mais te interessavam explorar?


Linei - Óriens sabe que não pode salvar o planeta sozinha. Ela conta sua história com o xamã do povo do vulcão para as doze Sábias do Conselho em busca de uma ação coletiva contra um desastre iminente. É a escritora do vale que desapareceu sem deixar vestígios anos antes para viver um grande amor e ser a ligação entre dois mundos muito diferentes: o do Vale do Norte em terra firme e o do vulcão submerso.

É uma mulher corajosa, perseverante, que segue princípios e está sempre atrás de uma boa história. Também tem seus defeitos, como todo ser humano, mas é uma pessoa de grande coração e que, bem ou mal, pensa no coletivo.

 

TEXTUARIA - A narrativa traz figuras muito marcantes, como o xamã, a sacerdotisa, a híbrida e as irmãs KAD. Como você desenvolveu essas personagens e seus papéis na trama?


Linei - O xamã representa o patriarcado e todas as suas mazelas: é um homem carismático e um líder amado pelos que o seguem, mas tem intenções nada louváveis em relação ao seu próprio povo, do qual foi exilado anos antes. É individualista e só pensa em seus interesses, mesmo que tenha de destruir o planeta para conseguir mais poder.

Equalis é a sacerdote do vale, responsável pela conexão do seu povo com sua ancestralidade da época do matriarcado. Ela introduz Deusa como centro de espiritualidade.

Hébrida, como o próprio nome diz, é uma híbrida que se contaminou com um fungo muito agressivo quando menina. O resultado é a junção do humano com esse reino na forma de uma moça de pele esverdeada e muito sensível aos sinais do planeta.

As KAD são três irmãs (esse número é considerado sagrado em diversas religiões) que também leem a natureza e têm papel importante no resgate do planeta.

 

TEXTUARIA - A diversidade de personagens sugere múltiplas formas de existência e identidade. Esse foi um ponto de partida ou surgiu ao longo da escrita?


Linei - Gostaria de destacar o papel de uma pitonisa idosa e cega, Tiamat, que vive e trabalha com a rainha-guerreira Dea Síria em um reino submerso mais além do vulcão do xamã. Tiamat é capaz de controlar as baleias e é um arquivo vivo de sua civilização. Ela é o catalisador capaz de juntar suas forças a de outras personagens icônicas para tentar equilibrar a ordem natural do planeta.

A diversidade de personagens é proposital: tentei trazer muitos tipos de personalidades e diferentes visões de vida para demonstrar que um mundo pacífico acolhe bem a todas, todos e todes e vai além: a realidade é tão cheia de faces diferentes que essas personagens trabalhando juntas são capazes de formar o mosaico da vida e garantir que aquele mundo continue acolhedor. E que a ordem natural do planeta persevere.

 


Linguagem, espiritualidade e simbolismo


TEXTUARIA - A linguagem poética é um elemento forte na obra. Como você trabalha esse aspecto dentro de uma narrativa de ficção científica?


Linei - No romance há personagens que são poetas – Angel, uma das irmãs KAD, por exemplo, fala em rimas o tempo todo. A sacerdote Equalis é uma excelente oradora. A protagonista Óriens é uma escritora muito imaginativa. Temos ainda Verônica Sólis, que, além de compor as músicas mais envolventes para as cerimônias do templo, ainda constrói os seus próprios instrumentos musicais. Dentro de uma estrutura igualitária que busca o bem comum, todo talento é valorizado. Porque a arte nos diz muito de nós mesmas e faz dessa vida às vezes bastante difícil, algo mais atraente, esteticamente falando. Mais cheio de cores e emoções positivas. Mais... poética.

 

TEXTUARIA - A espiritualidade aparece de forma sutil, mas significativa. Qual o papel dela na construção do universo de Gaia sob o Mar?


Linei - Sob o mar Boreális, além do vulcão ativo do xamã, existe um reino centrado na figura de Deusa Nina. A rainha e suas pitonisas, sacerdotes a serviço da Deusa e do amor, exercem suas funções sob essa ótica. Não se trata de um governo teocrático, porém, mas que se norteia pelos princípios de proteção e acolhimento a todas. Nesse sentido, é bem parecido com a forma de pensar e viver do povo do vale.

Existe até uma representação física da Deusa Nina, cujo papel na trama é bastante significativo. Para contrapor essa Deusa, o xamã cria para si e para seus seguidores o deus do fogo, vingativo e truculento, por isso um deus menor mas perigoso.

 

TEXTUARIA - A questão da linguagem — especialmente o uso do feminino — é muito interessante. Como você enxerga o poder da linguagem na construção de realidades?


Linei - A Linguística concluiu há muito tempo que a língua espelha realidades e as molda, conforme os interesses políticos das classes dominantes. O Português, por exemplo, é uma língua bastante machista – pai e mãe são “pais”; o dia do professor vem no masculino, apesar de a esmagadora maioria de profissionais serem mulheres. Isso tudo não é regra pétrea – foi criado para perpetuar um sistema machista e patriarcal no poder. E onde tem poder, não existe amor ou justiça verdadeiras.

Por isso adaptei nossa língua para soar mais feminina: mãe e pai são mães, além de todos os plurais virem no feminino sempre que possível. A ideia era espelhar uma sociedade que valoriza a mulher como criadora de vida e o feminino como centro de decisão justamente por isso. No início gera certo estranhamento ler um texto nessa língua mais feminina, mas ela é importante para dizer ao nosso inconsciente que um lugar mais acolhedor e mais justo com todas, todos e todes é possível de existir.

 


Diálogo com outras obras

TEXTUARIA - O livro conversa com autoras como Charlotte Perkins Gilman, Gerda Lerner, Ursula K. Le Guin e Octavia Butler. Como essas influências atravessam a sua escrita?


Linei - Admiro muito as personagens meio humanas e meio extraterrestres de Octavia Butler; os habitantes neutros de um planeta gelado de Ursula K. LeGuin que exteriorizam o sexo feminino ou o masculino dependendo de seu interesse por determinado parceiro; as descobertas arqueológicas registradas por Gerda Lerner em seu A Criação do Patriarcado, obra na qual baseei muitos dos valores e princípios de meus dois romances; Charlotte Perkins Gilman com o seu Terra Delas conta a história de uma sociedade isolada no interior dos Estados Unidos, composta totalmente por mulheres que se reproduziam por partenogênese e na qual absolutamente tudo funciona em perfeita harmonia.

Todas elas são grandes inspirações para as minhas próprias histórias.

 

TEXTUARIA - Você acredita que a ficção especulativa escrita por mulheres tem hoje um papel transformador no cenário literário?


Linei - Com certeza. As mulheres sempre escreveram ficção especulativa, outro nome para Ficção Científica, mas foram esquecidas ou desmerecidas pelo sistema do patriarcado. A literatura masculina não pode mais ser considerada universal, pois representa somente metade da humanidade. Faltava a nossa parte – e tem muita gente nova publicando textos excelentes.

Considerando pesquisa recente que diz que mais de cinquenta por cento das pessoas leitoras são mulheres, a leitura de mais escritoras só tende a crescer. E crescer entre homens também: um sistema que ignora as ideias e vivências de metade da população empobrece a sociedade como um todo e faz muitos homens sofrerem por serem proibidos desde crianças a expressar suas emoções, por se verem obrigados pela cultura a se encaixar em uma visão de gênero masculino tóxica e cruel.

Quanto mais diversidade de pontos de vista, mais ganhamos. Está aí o Gaia sob o Mar que não me deixa mentir.

 


Trajetória da autora


TEXTUARIA - Você tem uma formação sólida em Filologia e Língua Portuguesa. Como essa formação influencia sua escrita literária?


Linei - A Filologia é o estudo do Português por meio de textos antigos. Li muitas histórias em português arcaico, além de livros teóricos sobre esses mesmos textos. Aprendi como a língua funciona e por isso pude subverter algumas de suas regras para deixá-la mais feminina. Como dizem, somente quem conhece bem as regras pode quebrá-las para criar algo novo e melhor.

 

TEXTUARIA - Sua trajetória passa pela gramática, contos e romances. O que muda no seu processo criativo ao trabalhar com diferentes gêneros?


Linei - Publiquei uma gramática do português para estrangeiros dez anos atrás. A linguagem, nesse caso, é muito mais técnica: há pouco espaço para a criação artística. Já a linguagem literária oferece instrumentos para se criarem verdadeiras obras primas. Um exemplo? Na linguagem técnica, branco é branco, e vermelho é vermelho. Ponto. Na literária, o branco da neve pode vir respingado pelo sangue de uma pobre vítima. O céu avermelhado de fim de tarde de São Paulo pode vir pincelado de tons rosa ou azuis. O objetivo é fazer pensar e, principalmente, sentir. É o coração. É a pessoa como um todo.

 

TEXTUARIA - Como foi o caminho até a publicação de Gaia sob o Mar pela Editora Polifonia?


Linei - Submeti o romance Filhas de Gaia a uma chamada da editora em 2023 e fui aceita. Já estava matriculada na Escola de Escritoras, fundada pela Débora Porto, e fazia uma de suas oficinas – a 90/90 seu romance em noventa dias – na qual escrevi boa parte da primeira versão do Gaia sob o Mar. Depois de inúmeras revisões e leituras críticas, a editora Polifonia aceitou publicá-lo, e agora está em pré-venda no site.

O caminho foi de muita inspiração e, especialmente, de muito trabalho e reflexão. E agora está aí, em breve ao alcance de todo o público leitor.

 


Processo criativo e próximos projetos


TEXTUARIA - Você mencionou estar trabalhando em um novo romance, Filho Meu. Pode nos adiantar algo sobre essa próxima obra?


Linei - Filho Meu é um romance contemporâneo, semifinalista do Loba Festival 2025 como romance não publicado. Nele, a protagonista Colette enfrenta uma série de conflitos internos ao mesmo tempo em que se separa de um marido narcisista. É contra o namoro do filho com um rapaz mais velho e trabalha em uma clínica de cirurgia estética, onde pacientes lutam contra sua aparência fora dos padrões impostos de fora e contra a passagem do tempo. Colette ama demais, mas não consegue encontrar um equilíbrio entre amor e controle no que se refere ao filho, e os dois sofrem por isso. É uma história instigante e muito humana, que poderia acontecer a qualquer uma de nós.

O texto está em fase de revisão final e logo estará pronto para envio a futuras chamadas para publicação.

 

TEXTUARIA - O que te move, hoje, como escritora?


Linei - Minhas obsessões e a possibilidade de me conectar com as pessoas, seja para fazê-las pensar, seja para oferecer-lhes boas histórias que as distraiam do medo de avião enquanto precisam viajar a trabalho, por exemplo. Acredito que a Literatura nos ajuda a formar pensamento crítico; a nos distanciar da realidade para vê-la com outros olhos; a reduzir o estresse, tão disseminado nesses tempos de redes sociais. Quero fazer a minha parte pelo bem comum.

 

TEXTUARIA - Se pudesse resumir Gaia sob o Mar em uma sensação ou mensagem para o leitor, qual seria?


Linei - Esqueça a voz na sua cabeça que só critica e põe para baixo. Atire-se sem medo no mar da vida e busque nele o seu mundo ideal.

Sobre a autora

Linei Matz, autora
Linei Matz, autora

Linei Matz é escritora, professora de línguas, feminista e mãe. Defendeu mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela USP e publicou uma gramática de português para estrangeiros pela Editora Disal. Publicou um livro de contos, o Casos de Polícia, um romance, o Filhas de Gaia, e agora está lançando a sequência Gaia sob o Mar pela Editoria Polifonia. No momento, trabalha em seu terceiro romance, Filho Meu.

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