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Entre Musas e Vozes: O Caminho da Mulher na Literatura


O livro saiu pela Editora Polifonia
O livro saiu pela Editora Polifonia

Dos silêncios do passado ao despertar de autoras: um olhar sobre a reinvenção e resistência feminina nas páginas da história. Uma análise surpreendente da autora Márcia Meninato sobre a escrita das mulheres


Sobre o livro e sua proposta


Márcia Meninato, autora
Márcia Meninato, autora

Textuaria - "A Mulher na Literatura: de Musa Inspiradora a Autora" parte de uma inquietação muito potente. Em que momento essa pergunta, sobre o lugar da mulher na literatura, se tornou um projeto de livro?


Márcia - Na verdade, pensá-lo como livro, só veio depois de pronto, diante da necessidade de divulgar minhas descobertas e como forma de convidar a todos a ação, a fim de dar visibilidade a tantas mulheres esquecidas por terem suas obras descartadas em uma história registrada e contada pelo viés do patriarcado. Mas, a necessidade de buscar respostas para essas inquietações ainda me fazem querer estudar e pesquisar cada vez mais.

 

Textuaria - O título já sugere uma mudança de perspectiva: da mulher como musa à mulher como autora. Que transformações históricas e simbólicas você destaca nesse percurso?

 

Márcia - Inicialmente o termo Musa era destinado apenas as nove filhas de Zeus, aquelas que inspiravam os humanos em sua arte. Mas, diante do reconhecimento por Platão da genialidade de escrita da sacerdotisa Safo em seus poemas líricos, aclamando-a como a décima musa. Seu significado muda de entendimento. A poesia feminina pode ser tão ou mais brilhante que a masculina. Agora não já não é aquela que inspira, é a inspiração em si. Filósofas, escribas, astrônomas, pesquisadoras, historiadoras, as mulheres foram ganhando destaque, sendo admiradas por seus conhecimentos, talentos, capacidades e saberes. Até que as ideias patriarcais vão ganhando cada vez mais adeptos, com o apoio da religião que passa a acreditar em um único Deus.


As mulheres foram perdendo seus espaços, sob a crença de serem consideradas intelectualmente inferiores, fazendo com que seus estudos e tudo o que se relacionava a eles, fossem destruídos, não traduzidos ou desconsiderados até se perderem definitivamente na poeira da História. A figura feminina foi novamente reduzida aquela musa que inspira as artes produzidas e escritas por homens. Transformadas em personagens que representavam o modelo de perfeição feminina vigente: bela, recatada e do lar. Felizmente, sua natureza contestadora e a necessidade de se expressarem por si mesmas, as fez seguir na direção oposta. Só por volta do sáculo XIX é que algumas autoras se posicionaram mais abertamente, organizando movimentos de revolta contra o sistema vigente e lutando por espaço e igualdade, mesmo sofrendo muitos preconceitos e perseguições.


Textuaria - O livro propõe revisitar “verdades soterradas”. Que descobertas mais te impactaram ao longo da pesquisa?

 

Márcia - Quanto mais estudamos mais somos impactadas pela descoberta da manipulação da História. Muito do que aprendemos na escola e em seus muitos livros, não passavam de meias verdades e histórias mal contadas a partir da cultura predominante e dos interesses vigentes. Quanto mais nos aprofundamos no silenciamento feminino, mais descobrimos materiais que foram descartados ou desconsiderados por, e para, acreditarem na inferioridade do intelecto feminino. Só agora temos conseguido acesso a eles, graças as pesquisas e descobertas que mostram a contribuição feminina não só nas letras, mas em todas as áreas de conhecimento. Já era uma luta para estudar, o mínimo que fosse, outra muito maior para se chegar à faculdade e independentemente de sua sabedoria e capacidade, quando chegavam ao final do curso, as mulheres não tinham direito ao diploma.

Mas, o que me impactou positivamente e orgulhosamente foi saber que durante todo esse período, contra tudo o que se tentou para silenciá-las, muitas foram as rebeldes, que driblaram o sistema e se fizeram presentes de alguma forma, nem que para isso tivessem que recorrer a cartas, diários, poesias, revistas femininas ou se utilizar de muitos outros subterfúgios, sem nunca desistirem de seu propósito de conquistar seu direito de fazer parte da História.


Textuaria - Você fala em um “apagão histórico” da escrita feminina. Quais fatores contribuíram para esse silenciamento ao longo dos séculos?


Márcia - A história acaba sendo sempre contada pelo ponto de vista dos vencedores, que é claro, tem o poder de transformá-la de acordo com seus interesses como conquistador. Reescrevem a história, destroem documentos, silenciam quem não concorda com eles e influenciam as gerações futuras, até que tudo seja enterrado, escondido e finalmente esquecido, como se nunca tivesse existido. A criação da escrita e posteriormente da imprensa, mudaram o rumo da humanidade. E dependendo de quem controla a palavra, os caminhos vão sendo traçados e novas verdades vão sendo estabelecidas. O patriarcado e a religião foram determinantes para o silenciamento feminino, considerando as mulheres desde seres sem alma até intelectualmente inferiores. Eram tratadas e consideradas como propriedades de seus pais e maridos, moeda de troca para casamentos vantajosos, criadas para serem obedientes e prendadas. A rebeldia, era muitas vezes considerada histeria e acabavam internadas em sanatórios, expulsas das suas famílias e na melhor das hipóteses, encaminhadas aos conventos, onde podiam finalmente se dedicar aos seus estudos, tornando-os centros intelectuais femininos, sem risco de espalhar suas ideias ‘perigosas’. Diante de tantos trágicos fins, tornou-se mais fácil, convencê-las de suas fragilidades.

Infelizmente a literatura produzida nesses períodos, foi de grande valia para que mais e mais mulheres se contentassem a um papel secundário.


Quando pensamos no papel dessa mulher na literatura, logo nos veem algumas personagens históricas em clássicos, escritos por autores renomados. Musas inspiradoras que serviam de modelo. O amor puro e recatado de uma mulher idealizada e longe das reais, que por mais que tentassem copiá-las, nem sempre conseguiam alcançar tamanha perfeição, deixando infelizes homens e mulheres. E, mesmo não tendo como ignorar as personagens consideradas rebeldes, por não seguirem os modelos preestabelecidos, muito mais marcantes, excitantes, apaixonantes e sedutoras, que faziam seus autores perderem a cabeça, de forma consciente ou inconsciente, era necessário mostrar-lhes seu devido lugar, dando-lhes trágicos fins, fosse através da morte, da loucura, de uma doença incurável, qualquer coisa para que para que não servissem de modelos as futuras gerações de mocinhas ‘casadoiras’ e mulheres recatadas. Mas, graças a Deus, independentemente de seus tristes fins literários ou na vida real, muitas mulheres inconformadas com o papel que lhes era designado, não desistiram.

 


Pesquisa e investigação histórica


Textuaria - A obra nasce de uma investigação sobre quem teria sido a primeira mulher escritora. Como foi esse processo de pesquisa e quais foram seus maiores desafios?


Márcia - A minha pesquisa teve início em 2005, logo nas primeiras aulas na faculdade de letras/literatura, pois poucas e sempre as mesmas mulheres escritoras eram destacadas. Quando surge o nome da poetisa lírica Safo, tantos séculos antes, logo se acendeu a curiosidade, quem teria sido a primeira autora da história? Quem seriam as outras ilustres desconhecidas? E, assim resolvi traçar uma linha do tempo às avessas, começando das atuais até pelo menos Safo e quiçá, antes dela. A maior dificuldade foram os períodos sobre os quais quase não havia materiais comprobatórios dessa presença feminina na literatura, deixando enormes lacunas que precisavam ser preenchidas. Nesse momento, descobrir a primeira de todas as autoras, já não era uma prioridade e sim, o que gerou tal hiato histórico. Agora, tudo começa a mudar de figura, novos nomes surgem a cada dia, garantindo a reescrita da nossa história.


Textuaria - Ao longo do livro, você percorre nomes importantes da literatura. Como foi selecionar essas autoras e o que conecta todas elas dentro da sua narrativa?

 

Márcia - Bastante difícil, apesar de serem poucas em relação a quantidade de autores consagrados, ainda assim eram muitas para estarem em uma linha do tempo de uma pesquisa. Então, acabei por selecionar uma representante de cada século de acordo com a sua originalidade, genialidade ou pelo alcance e contribuição para a conquista da valorização da escrita feminina. Muitas escritoras maravilhosas ficaram de fora, outras talvez não tão conhecidas como Mariana Alcoforado, entram como exemplo de épocas sobre as quais ainda temos pouquíssimos conhecimentos. Algumas pessoas me perguntam por que não destaquei mais as autoras brasileiras, mas esse é um estudo que ainda quero aprofundar bastante em busca de alguns nomes anteriores aos do século XIX.

 

Textuaria - Ao chegar à figura de Safo, que viveu séculos antes de Cristo, surge um grande hiato histórico. Como você interpreta esse vazio na memória literária feminina?

 

Márcia - O que parece um grande vazio na verdade foi a forma como as mulheres usaram para lidar com o silenciamento que lhes foi imposto, ao escreverem anonimamente ou sob alguma outra alcunha. Escreveram, pesquisaram, enviaram cartas, guardaram seus diários e manuscritos, assinaram com pseudônimo masculino e o que mais fosse preciso para conquistarem o direito de serem lidas e terem suas obras reconhecidas e publicadas. Não bastava assinar como um homem, precisavam convencer a todos se tratar de uma obra escrita pelo mesmo sexo, então tinham de se utilizar dos mesmos recursos e muitos artifícios, para não serem descobertas. Onde parecia que não haver mulheres escritoras, na verdade estavam apenas driblando o silêncio que não lhes cabia.

 

 

Textuaria - Em sua opinião, o que ainda falta para que a história da literatura seja recontada de forma mais justa e inclusiva?


Márcia - Continuarmos em nossas pesquisas, revelando novos/ velhos nomes de ‘ilustres desconhecidas’ para que a história possa ser reparada e reconstruída, dessa vez com os dois lados da moeda. E, que essas descobertas cheguem ao maior número de pessoas, seja pelas escolas, livrarias, concursos e premiações literárias. Além, de rompermos com todo e qualquer preconceito, inclusive o nosso, em relação a nossa escrita e reconhecê-la como diferente sim, mas em nada inferior. Cada qual no seu estilo, dar ao mundo a oportunidade de conhecer a outra história, aquela por séculos desconhecida e se deixar surpreender com tudo o que ficou por dizer.

 

As autoras e o legado feminino


Textuaria - O livro passa por nomes como Clarice Lispector, Hilda Hilst, Virginia Woolf e Mary Shelley. Qual foi o critério para trazer essas vozes para a obra?


Márcia - Vários foram os critérios que interferiram na escolha dessas autoras, desde a grande admiração pela obra dessas mulheres até a afinidade pessoal gerada pela necessidade de escrever. Em comum elas têm: a luta contra o silenciamento feminino, o grau de transgressão extremamente necessário para vencer os limites, a inovação dos temas considerados tabus e a paixão sem fronteiras pelo mundo das letras presente em suas obras. Todas elas foram pioneiras em seus estilos, consideradas exemplos de superação não só em relação as suas obras, mas, na vida pessoal, as vezes pagando um alto preço social para que hoje, pudéssemos chegar até aqui, publicando, lendo e sendo lidas.

 

 

Textuaria - Há alguma dessas autoras que te impactou de forma mais pessoal durante a escrita?


Márcia - Todas, cada uma a sua maneira, por isso acabaram sendo selecionadas como ícones da literatura femnina: Clarice Lispector por sua escrita totalmente peculiar, com suas epifanias cotidianas que nos tiram da caixinha a cada leitura; Hilda Hilst, totalmente vanguardista com a sexualidade feminina e a genialidade de seus múltiplos talentos literários (poeta, cronista, dramaturga, ficcionista; Virginia Woolf que em seu fluxo de consciência busca a liberdade literária e a inovação “científico-gótico-literária” de Mary Shelley.

 

Textuaria - Como você enxerga o papel dessas escritoras na construção de caminhos para as mulheres que escrevem hoje?


Márcia - Assim como em determinada época a literatura nos levou a aceitarmos de bom grado o papel de musa inspiradora, a obediência e a achar que tínhamos que ser modelo de recato, paciência e talentos domésticos, a mesma literatura se fez resistência, rompeu barreiras, trouxe à baila vários tabus e nos devolveu o direito a nossa própria voz, ao nos expressarmos e inspirarmos por nós mesmas. Graças a cada uma dessas escritoras pioneiras e desbravadoras e, a todas as outras que se fizeram resistência e luta contra o silenciamento antes delas, estamos aqui hoje, lendo, escrevendo, publicando, gerando conhecimento e reflexões, revelando a verdadeira história por trás daquela outra mal contada, nos colocando mais uma vez em pé de igualdade na História.

 

 

Reflexão, provocação e impacto


Textuaria - Você descreve o livro como uma “pulguinha atrás da orelha”. Que tipo de inquietação você espera despertar nos leitores?


Márcia - Do tipo que precisa ser resolvida ou não lhe deixarão em paz. Mais do que um convite a reflexão é uma convocação ao engajamento e a ação. Temos que nos empenhar, descobrir, estudar, divulgar e escrever cada vez mais, para mantermos o espaço duramente conquistado por nossas predecessoras, buscando o reconhecimento e valorização da escrita feminina, para que nunca mais sejamos silenciadas e nos percamos na poeira da História.

 


Textuaria - A obra convida não só à reflexão, mas também à ação. Que ações você acredita que podem surgir a partir dessa leitura?

 

Márcia - Diante da destruição de tantos arquivos, como aconteceu em Alexandria e das perseguições ora culturais, ora religiosas, muitas verdades ainda estão literalmente enterradas, precisando vir à tona. Diante da falta de registros históricos, muito do que se consegue para reconstrução dessa parte da história, se deve graças a divulgação de materiais como cartas, diários, manuscritos, que vem sendo descobertos todos os dias, em todos os lugares. A análise das personagens femininas e seus contextos mesmo na literatura masculina, em revistas e periódicos de diversas épocas, também têm sido de grande valia para o desvendar de tantos mistérios.  Espero que o fato de saber que somos frutos de uma história contada pela metade nos faça querer desvendar a outra parte, aquela escondida, soterrada e esquecida, para juntos, escrevermos uma nova e verdadeira História.


Textuaria - Você acredita que ainda hoje existem formas de apagamento da autoria feminina? De que maneira elas se manifestam?


Márcia - Infelizmente sim. Ainda temos que lutar por nosso direito de escrever, sermos lidas e vermos nossas obras consideradas em condições de igualdade. Pesquisas apontam que mulheres leem mais, consomem mais literatura, participam mais de clubes de leitura, incentivam e formam novos leitores, no entanto, as publicações, premiações e reconhecimento na qualidade literária, continua sendo majoritariamente masculino. O que será que esses dados realmente apontam? Lemos e escrevemos quando não nos era permitido, o que estamos esperando para nos fazermos reconhecidas?


Trajetória da autora


Textuaria - Sua trajetória como professora e pedagoga aparece como parte importante da sua formação. Como a sala de aula influenciou sua escrita e sua pesquisa?


Márcia - Desde que era aluna, já era uma leitora apaixonada. Quando me tornei professora procurei passar isso para meus alunos e como sempre trabalhávamos com projetos, a literatura estava em quase tudo o que fazíamos, além de sempre montar um canto para literatura deleite em cada turma. Outra prática muito utilizada era a escrita coletiva de textos. E na falta de algum material que precisasse, comecei a escrever para eles: histórias infantis, peças de teatro, criação de personagens para as provas que eram montadas como uma grande história a ser completada. Os temas de redação sempre rendiam histórias super criativas. Tudo isso com certeza influenciou a minha escrita e a deles. Mas, antes mesmo de me embricar em minha pesquisa, tive o prazer de trabalhar com eles, os textos de grandes escritoras, das quais já era fã de carteirinha como Cecília Meireles, Ruth Rocha, Eva Furnari, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Sylvia Orthof e muitas outras, aumentando a legião de fãs. Mais tarde, transformei a paixão em estudo e me matriculei na faculdade de letras, e só então, tomei pé da situação feminina no mundo literário. Ali surgiu a inquietação e ao mesmo tempo a felicidade de mesmo inconscientemente, ter proporcionado a meus alunos o acesso a escrita feminina de altíssima qualidade e por ter incentivado a todos a produzirem seus próprios textos, com a segurança de que sempre temos muito a dizer e que o mundo merece conhecer nossas escrevivências. Hoje, fora da sala de aula, todas essas experiências viram histórias em meus livros.

 

Textuaria - Você menciona que escreve por necessidade. Como essa urgência se traduz no seu processo criativo?

 

Márcia - Outro dia descobri que minhas ‘gavetas cerebrais’ não funcionam muito bem, permanecendo sempre abertas e acessíveis, o que as vezes faz uma salada danada. Uma palavra, um tema, um acontecimento, tudo me remete a muitas outras coisas, principalmente músicas, livros e filmes. Quando essas conexões acontecem, o que acontece quase que o tempo todo, é como se fosse uma ‘sinapse-catarse’ meio descontrolada e tenho que estar sempre com o papel e caneta a mão. Só não encontrei solução ainda para a hora do banho, onde o fenômeno mais acontece. Puro desespero! Ou na academia, tendo que parar toda hora, para escrever antes que as palavras e inspirações fujam do pensamento. Nada muito organizado, saio escrevendo tudo o que consigo e depois venho arrumando e tentando embelezar. Às vezes, as ideias vêm quase prontas, chego a desconfiar se sou eu mesma quem está escrevendo. Parece uma coisa meio louca, mas flui com tanta naturalidade que parece que estava ali há muito tempo, só esperando uma oportunidade de se jogar no papel. Tenho a sensação de que quase nunca escrevo sozinha, por conta dessas gavetas mal fechadas, a cada proposta de escritas, muitos outros autores e compositores vem em meu encalço, dar ou tirar uma palhinha.

 

 

Textuaria - Seu primeiro público foram seus alunos. Como foi essa experiência de escrever pensando diretamente em leitores tão próximos?

 

Márcia - Maravilhoso! Ainda mais se tratando de crianças. Amam ou detestam. Ainda bem que amam muito mais do que detestam. Mas o retorno é instantâneo e sem disfarces. É como ser atriz de teatro, você se apresenta e a reação do público vai te dando as dicas do que precisa ser melhorado. E, ainda tem aquilo que você não deu a menor bola e eles amaram. Essa é a deixa para descobrir os seus pontos fortes e as necessidades de seu público. É vivo, é dinâmico, é fantástico!

 

Textuaria - Como foi o processo de publicação pela Editora Polifonia?


Márcia - Estava em processo de aposentadoria quando em busca de coragem para ir até o fim, ingressei na Escola de Escritoras da professora Débora Porto. O sonho de escrever e publicar era antigo, mas a coragem, mínima. Foi durante as aulas, graças ao incentivo das amigas de jornada, que comecei a acreditar que não só era possível como poderia se tornar uma realidade. O livro “A Mulher na Literatura - de musa inspiradora a autora”, já estava engavetado há algum tempo e quando abriu chamada para publicação respirei fundo e enviei. Não preciso dizer que fiquei mega feliz com o retorno positivo por parte da editora. Como já conhecia a Débora, a seriedade de seu trabalho e da sua equipe, foi bem mais fácil, entender e dar conta de todo o processo. Recebi as orientações que precisava e a partir daí começamos o grande trabalho de publicá-lo. O livro foi lançado na FLIP no ano passado e segue em divulgação.


Literatura, educação e futuro


Textuaria - Qual o papel da educação na valorização e no resgate da escrita feminina?


Márcia - O de se comprometer com a valorização dessa escrita desde os primeiros anos de escolaridade, ressaltando as competências de todos para se expressarem. Quando você conhece a literatura e se apaixona por ela, já é meio caminho andado. O professor que oferece aos seus alunos a possibilidade de leitura de autoras cuja obra é significativa, não precisa ensiná-los sobre a sua potência, eles a sentirão.

 

Textuaria - Você acredita que as novas gerações já têm mais acesso a autoras mulheres ou ainda há um longo caminho a percorrer?

 

Márcia - Muito mais do que já tiveram um dia, mas precisamos estar sempre vigilantes ainda há um longo caminho nesse sentido. O discurso e a prática ainda vivem em dicotomia. Se lemos mais, consumimos mais e escrevemos mais, por que tão poucas indicações, celebrações e premiações. Por que tão poucas na academia? Por que continuamos indicando sempre os mesmos nomes masculinos? Há espaço para todos, podemos escrever de forma diferente, com uma ótica diferente, mas, a qualidade dessas produções, não deveriam ser determinadas pelo sexo de seus autores.

 

Textuaria - Que autoras contemporâneas você indicaria para quem deseja ampliar esse repertório?

 

Márcia - Sou uma eterna apaixonada por Adélia Prado, Ana Maria Machado, Conceição Evaristo, Lygia Bojunga, Rosa Montero e muitas outras renomadas, mas tem muita gente nova chegando com tudo: Carla Madeira, Noemi Jaff, Ryane Leão, Djamila Ribeiro, Mel Duarte, Aline Bei, Socorro Acioli. Mas, fã de carteirinha, sou das mulheres maravilhosas que fazem parte da Comunidade da Escola de Escritoras, por ter a oportunidade de ver seus livros nascerem, com estilos próprios e únicos, poesias, mistérios, suspense, terror, ficção científica, romance, crônicas, contos: Aline Almeida, Ana Júlia Poletto, Andreia Santos, Cilene Resende Manzato, Cláudia Vechi Anunciato, Daiane Pereira Rodrigues, Daniela Baez, Daniela Camargo, Débora Porto, Edy Tavares, Francielly Hirata, Ivânia Rocha, Juliana Protásio, Kelly Cristina,  Leide Jacob, Linei Matz, Lucimar Zanzone, Nila Maria Picarelli , Patrícia Miguel, Paula Estellita Lins,,  Phamela Hinhel, Vivian Marchezini e ainda tem mais gente boa chegando por aí.


Textuaria - Se pudesse deixar uma mensagem para mulheres que desejam escrever, qual seria?

 

Márcia -

A mesma que passei para os meus alunos: Escrevam com a segurança de que sempre temos muito a dizer independentemente do estilo, da criatividade e da vivência de cada um, o mundo merece conhecer nossas histórias. Se um livro lhe parecer impossível, comece com cartas, diários, cadernos de pensamentos, frases que sejam. Quando assustar, lá vai estar seu livro, sua obra. Acessando a gaveta musical do Gonzaguinha “Nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será!”


 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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