O ponto final que também começa
- Aniuska VAN HELDEN

- 25 de mar.
- 6 min de leitura

Uma entrevista sensível sobre o livro de poesias "Coloque, você, um ponto final"
Em sua estreia, a autora Vanessa Macena revela como a psicanálise, as vivências pessoais e a escuta sensível se transformam em poesia
Sobre a autora e sua trajetória
TEXTUARIA - Você conta que escolheu a Psicologia ainda na infância. O que, naquele momento, já te conectava com o universo humano e emocional?
Vanessa - Em algum momento da minha infância, comecei a me questionar: o que faz as pessoas se comportarem da forma como se comportam? Essa pergunta me levou a escolher o curso, e a Psicanálise me permite compreender, a cada atendimento, a dimensão do ser humano, suas vivências e as diferentes formas de lidar com elas.
TEXTUARIA - Como sua vivência clínica influencia a sua escrita poética? Existe uma troca direta entre esses dois espaços?
Vanessa - Minha escrita poética veio depois da clínica, embora eu sempre tenha escrito nos momentos de maior angústia. A vivência clínica atravessa minha escrita de forma mais sensível e poética, em uma troca direta: quando consigo transformar aquilo que escuto e experiencio na clínica em algo que vai além do acadêmico, do teórico e das nomenclaturas científicas. Assim, passo a retratar as angústias e os sofrimentos como parte da vida e do próprio ser humano.
TEXTUARIA - Você nasceu e cresceu em Belo Horizonte — de que forma sua cidade aparece (ou ecoa) na sua escrita?
Vanessa - É uma pergunta interessante. Não sei como responder, porque não havia pensado nisso antes… Ficarei com essa pergunta para responder em outro momento.
Sobre o livro “Coloque, você, um ponto final”
TEXTUARIA - O título do livro é bastante provocador. Em que momento você percebeu que essa seria a frase que sintetiza a obra?
Vanessa - O título do livro foi decidido em conjunto com Liana Ferraz, responsável pela leitura crítica. A obra conta com um bloco dedicado a sonhos significativos que tive, mas sem interpretações, apenas relatos. Um deles, intitulado “Coloque, você, um ponto final”, retrata um sonho sem muita explicação ou sentido e se encerra com diversos questionamentos existenciais da personagem, abrindo espaço para novas perspectivas sobre o que estava acontecendo e instigando o leitor a interpretar e a dar seu próprio ponto final à história. Ao final da leitura crítica desse texto, entendemos que ele dialoga de forma coerente com o livro como um todo.
TEXTUARIA - A ideia de “colocar um ponto final” costuma ser associada a dor ou ruptura. Como você ressignifica esse conceito ao longo do livro?
Vanessa - Ao longo do livro, o ponto final é apresentado de diversas formas: na imposição de limites, nas frustrações amorosas, no perder-se de si mesmo, entre outras experiências. Acredito que a ressignificação se faz presente na sutileza de olhar para si e acolher-se. A dor, a tristeza, a angústia, as incertezas — enfim, o sofrimento humano — estão presentes, mas o cuidado consigo e com a própria história também.
TEXTUARIA - O livro fala sobre ciclos, encerramentos e recomeços. Houve alguma experiência pessoal que impulsionou essa temática?
Vanessa - Sim, a maioria dos textos parte das minhas vivências. São poucos os textos em que pensei em um tema e escrevi minhas opiniões a respeito.
TEXTUARIA -Você espera que o leitor saia da leitura com qual sensação ou reflexão principal?
Vanessa - Espero que os leitores terminem a leitura olhando para si mesmos com mais carinho, cuidado e, também, com um pouco mais de coragem para os recomeços.
Processo criativo
TEXTUARIA - Como foi o processo de escrita do livro? Os poemas surgiram de forma espontânea ou foram sendo construídos ao longo do tempo?
Vanessa - O livro foi construído a partir de textos antigos, textos escritos em um grupo de escrita criativa há alguns anos, além de textos mais recentes. Quando decidi escrever e publicar o livro, precisei reescrever alguns textos, mas não tive uma rotina fixa de escrita.
TEXTUARIA - Existe algum poema da obra que você considera mais íntimo ou desafiador de escrever? Por quê?
Vanessa - Sim, há muitos poemas íntimos, por terem sido escritos em uma época em que eu estava mais fragilizada e vulnerável. Os textos mais desafiadores são diferentes dos mais íntimos, pois exigiram técnicas e uma ampliação do meu processo criativo para serem concluídos. E, assim, fui entendendo melhor a minha escrita.
TEXTUARIA - Você escreve pensando em alguém específico ou o seu leitor vai sendo descoberto ao longo do caminho?
Vanessa - Os dois. Às vezes penso em mim; às vezes, sou um personagem que criei. Mas deixo sempre um espaço para o leitor se encontrar e se identificar na leitura.
Psicologia, luto e finitude
TEXTUARIA - Seu interesse pelos processos de luto, morte e o morrer aparece de forma sensível no livro. Como esses estudos atravessam sua escrita?
Vanessa - Atravessam como uma oportunidade de organizar tanto os pensamentos quanto os sentimentos a respeito desse processo tão natural da vida.
TEXTUARIA - Em uma sociedade que evita falar sobre finitude, qual você acredita ser o papel da literatura nesse diálogo?
Vanessa - Evitamos pensar na finitude porque não gostamos da ideia de viver em um mundo sem as pessoas que amamos, porque não aceitamos — ou temos medo — da própria morte, e pela angústia de imaginar como seria a vida de quem fica. São angústias significativas e fazem parte do que nos compõe como seres humanos.
Parece-me que, quando se fala de finitude, dois extremos costumam aparecer: a banalização — afinal, “todo mundo vai morrer”, então não precisaríamos sofrer por isso — e o sofrimento profundo que emerge ao pensar nessa ideia, tornando a morte quase uma palavra interditada.
Acredito que a literatura pode sustentar um diálogo de meio-termo, validando os desdobramentos que envolvem o luto, a morte e o morrer, e possibilitando que a pessoa sinta, se expresse e viva seus dias com mais cuidado consigo e com aqueles com quem convive.
TEXTUARIA - Falar sobre “ponto final” também é falar sobre limites. Você percebe dificuldade das pessoas em encerrar ciclos?
Vanessa - Sim, porque encerrar ciclos indica o início de algo novo e tudo aquilo que é novo causa medo, insegurança e angústia. Além disso, para encerrar um ciclo, é necessária uma nova postura diante de si mesmo — e isso pode ser muito difícil.
Escrita terapêutica
TEXTUARIA - Você está desenvolvendo um projeto de escrita terapêutica em grupo. Como surgiu essa ideia?
Vanessa - Essa ideia surgiu em um momento da minha clínica. Houve uma época em que as pessoas que eu atendia se queixavam muito do estresse e das cobranças do cotidiano, mas não tinham tempo para descansar, ter um hobby ou simplesmente estar consigo mesmas — ou seja, desacelerar.
Então, lembrei do grupo de escrita criativa do qual participei durante a pandemia. A escrita possibilitava uma conexão com os meus sentimentos, mesmo quando essa não era a proposta inicial. E, no grupo, ao ouvir cada pessoa relatar suas vivências, eu me sentia acolhida, pertencente à minha própria história e aberta a considerar diferentes caminhos, mesmo após o fim dos encontros.
Assim, o projeto de escrita (re)formulações nasce da junção desses elementos: um tempo para si, para desacelerar; a possibilidade de externalizar e organizar as ideias, enxergando-se “de fora”; e o compartilhar, ser acolhido, perceber que outras pessoas também atravessam experiências semelhantes e descobrir novas formas de lidar com as próprias questões. Afinal, aprendemos muito uns com os outros.
TEXTUARIA - De que forma a escrita pode ajudar as pessoas a elaborarem seus sentimentos e vivências?
Vanessa - Quando escrevemos, nomeamos os nossos sentimentos e, muitas vezes, nos debruçamos sobre aquilo que estamos vivenciando, mesmo quando não entendemos bem o que está acontecendo ou não encontramos palavras suficientes para expressar.
Nesse sentido, a escrita abre a possibilidade de pensar sobre si sem tantas cobranças ou julgamentos. E, ainda que não haja uma resposta, uma definição ou uma “conclusão”, já houve a criação de um espaço — que pode, inclusive, ser o início desse processo.
TEXTUARIA - Esse projeto conversa diretamente com a proposta do seu livro? Como eles se complementam?
Vanessa - Acredito que sim. Inclusive, já conduzi um grupo de escrita a partir de duas reflexões presentes no livro, que abordam a forma como lidamos com as adversidades da vida e quem somos, fomos e queremos ser.
Tanto o livro quanto a proposta do projeto compartilham a mesma perspectiva: olhar para si com mais gentileza e se permitir recomeçar.
Caminhos e futuro
TEXTUARIA - Após a publicação do seu primeiro livro, o que mudou na sua relação com a escrita?
Vanessa - Passei a compreender melhor o meu estilo de escrita. Hoje, consigo diferenciar quais textos são mais voltados ao “desabafo” e quais têm potencial para publicação, seja no Instagram ou em outros projetos. Essa distinção é importante para mim, pois funciona como um filtro entre o que é da ordem do meu processo terapêutico e o que se configura como escrita de “trabalho”.
TEXTUARIA - Existe algum novo projeto em andamento que você possa compartilhar?
Vanessa - Tenho dois projetos em mente: um livro infantil e um livro que retrata o luto e seus desdobramentos. Para o livro infantil, já tenho um esboço, mas, no momento, estou me dedicando ao outro.
Pergunta final
TEXTUARIA - Se você pudesse deixar uma única frase para alguém que precisa “colocar um ponto final” hoje, qual seria?
Vanessa - Colocar um ponto final e recomeçar é bem difícil, em muitos sentidos. Então, seja gentil consigo mesma(o).




Comentários