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Entre magia, medo e julgamento: Kelly Cristina Oliveira revela o universo de Malditos Bruxos

Kelly Cristina, escritora
Kelly Cristina, escritora


Na entrevista, a autora fala sobre sua infância cercada por teatro, rádio e jornalismo, reflete sobre o papel da fantasia como espelho da realidade e apresenta os bastidores de Malditos Bruxos – Campeonato de Magia, romance que mistura suspense, crítica social e um inquietante jogo de poder em uma arena mágica.


Textuaria -  Para começar, conte um pouco sobre você. Como sua infância cercada por teatro, rádio e jornalismo influenciou a escritora que você se tornou?

Kelly - Por meio do jornal eu tive o meu primeiro encontro com o universo da comunicação. Aos dois anos de idade, acompanhava o meu pai Gecelito Freitas de Oliveira, que queria fazer a expansão da circulação do jornal na grande Belo Horizonte. Enquanto ele fazia a distribuição, eu estava entre os fardos do Diário de Minas, onde o cheiro da tinta fresca e o mistério das letras impressas despertavam a minha curiosidade. Depois me encantei com as placas das ruas, e com os anúncios de outdoors que se pareciam com as letras que eu via no jornal, e eu realmente queria muito saber o que significava.

Antes de ir para o IEVEN, onde eu estudava em Venda Nova, quando eu não estava no quintal da casa, assistia a Emília da TV em preto e branco, que me soprava a ideia de que “eu também poderia criar minhas próprias histórias”. A minha mãe, Maria Reis (Nira Santos) fazia teatro nessa época, e como eu era muito nova, era difícil entender o que era real, e porque ela se transformava em outros personagens. Aos três anos, o teatro, o circo e o cinema fundiram o meu cotidiano ao território do “faz de conta”.

A mudança para Pirapora - Norte de Minas ampliou o meu universo narrativo. Morava dentro das instalações da Rádio Pirapora, da Rede Itatiaia, cresci cercada por vozes, músicos, locutores e visitantes ilustres, absorvendo o ritmo da oralidade e o encanto das narrativas contadas ao vivo. Na cidade, tive a sorte de conviver com professores dedicados e vizinhos intelectuais, como o Dr. Ivan Passos e dona Argelce Mota (in memoriam), cujas histórias e conversas alimentavam a minha imaginação e esperança no mundo.

Entre aulas de pintura, ballet e o som do piano que ecoava da casa vizinha, a arte deixou de ser um luxo distante e se tornou a forma como eu respirava.

Aos sete anos ganhei um diário, e descobri que a escrita poderia reunir tudo aquilo que me encantava: memórias, sonhos, silêncios, ausências e emoções. Ao escrever ainda sou aquela menina que acreditava que o mundo sempre poderia ser reinventado.

Desde então, escrever tornou-se o lugar onde realidade e imaginação se encontram.

 

Textuaria  - Você construiu uma carreira sólida na comunicação antes de estrear na literatura. Em que momento sentiu que a escrita de ficção precisava ganhar espaço na sua vida?

Kelly -  Trabalhei na Rede Itatiaia, na Assembleia Legislativa e, depois, me formei em Comunicação Social. Sim, tenho uma boa experiência na área. Desde a faculdade de Ciências Humanas buscava estar próxima dos livros, pois sempre gostei muito de ler, principalmente porque o Brasil tem uma tradição literária muito rica, com autores consagrados como Lya Luft, Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Guimarães Rosa, Jorge Amado e tantos outros que nos inspiram. Portanto, temos qualidade literária no nosso país.

Com o advento da globalidade, ampliou-se a circulação das histórias e dos livros, comecei a perceber que as séries, cinema e cultura pop fizeram o público se abrir mais para histórias que misturam mistério, sobrenatural, drama humano e crítica social.


Em 2021, decidi transformar o conhecimento adquirido em algo de valor para deixar para a humanidade. Juntei a minha satisfação pessoal de escrever com a vontade de contribuir para a construção de um futuro mais justo e mais solidário. O tema escolhido para o meu primeiro livro de suspense e realismo psicológico, veio da indignação perante a violência contra a mulher, que começa com meninas desde a mais tenra infância, e transforma o tema em literatura. Assim nasceu “A Monalisa do Sertão em estado de choque”, um suspense psicológico ambientado no sertão mineiro dos anos 80, que mergulha nas cicatrizes invisíveis da violência contra meninas.

 Depois publiquei o livro Malditos Bruxos - Campeonato de Magia, uma história que mistura o suspense investigativo, fantasia mágica e uma reflexão social.

 

Textuaria  - Malditos Bruxos – Campeonato de Magia apresenta um universo fantástico marcado por mistério, acusação e jogo de poder. De onde nasceu a ideia inicial da história?

 

Kelly - A gênese desta ideia reside na interseção entre a existência feminina e as estruturas do sistema patriarcal. Historicamente, a autonomia das mulheres foi criminalizada sob o estigma da bruxaria — um mecanismo de controle exercido predominantemente por homens. Na literatura, a figura da bruxa simboliza aquilo que a sociedade não consegue explicar ou controlar, por isso passou a representar qualquer pessoa transformada em inimigo público. É justamente por causa desse fato, que essas histórias continuam atuais: elas falam sobre temas permanentes da experiência humana, como: intolerância, medo do diferente, manipulação social e violência.

Sabemos que: “os homens não queimavam as bruxas”, queimavam e ainda queimam: “mulheres que possuem algum conhecimento”. E o objetivo aqui neste livro é propor uma subversão dialética: confrontar o olhar masculino com a inversão categórica desse papel histórico, por isso trouxe “os bruxos” como protagonistas, sendo acusados e apontados pela sociedade.

 

Textuaria  - A trama começa com festas, um assassinato e a cidade em pânico diante do “oculto”. O que te atrai nesse ponto de tensão entre medo coletivo, boatos e julgamento público?

Kelly - O que me atrai é descrever o momento em que a sociedade perde a razão, e passa a agir movida pelo medo ou por ignorância contra pessoas que não se encaixam em um padrão social.  Existe um conceito muito estudado na sociologia e na psicologia social chamado bode expiatório. Quando uma sociedade enfrenta medo, crise ou frustração, muitas vezes procura alguém para culpar. Isso acontece porque é psicologicamente mais fácil apontar um culpado do que lidar com problemas complexos.

Malditos Bruxos vai mostrar a construção de boatos, a paranoia coletiva diante do preconceito, multidões se voltando contra alguém, revelando a fragilidade das relações humanas, e a transformação do medo em violência. A paranoia coletiva é perigosa e pode destruir vidas.

 

 Textuaria  - Lord Dentada é rapidamente apontado como culpado. Você diria que o livro dialoga com temas como preconceito, estigmatização e busca por bodes expiatórios?

Kelly - Sim. O livro apresenta alguns personagens que possuem a mentalidade de “manada”, é muito comum dentro do discurso do preconceito. O bruxo é o primeiro a ser acusado, e histórias de bruxaria costumam refletir tensões sociais reais.

A figura do “bruxo” pode funcionar como uma metáfora para o diferente — aquele que é visto com desconfiança, medo ou hostilidade pela comunidade. Quando algo trágico acontece, aqueles que já são considerados estranhos ou marginalizados acabam sendo os primeiros a serem acusados. Esse mecanismo social lembra processos históricos como os julgamentos das bruxas retratados em obras inspiradas nos acontecimentos de Salem. Assim, ao abordar acusações, suspeitas e conflitos dentro de uma comunidade, Malditos Bruxos pode ser lido não apenas como uma história de fantasia e suspense, mas também como uma reflexão sobre a facilidade com que sociedades criam rótulos, apontam culpados e transformam pessoas em símbolos do medo coletivo.

 

Textuaria -  Sinistro, o filho que emerge das sombras e assume o centro da narrativa, é um personagem intrigante. Como foi o processo de construção dele — vilão, anti-herói ou algo além dessas categorias?

 Kelly - Sinistro é apresentado primeiro pelo carisma e pela beleza física. Queria criar um personagem que fosse único, peculiar. Ele dança, sensualiza, brinca com as pessoas e demonstra prazer em provocar reações, cria admiração e curiosidade. Ou seja, ele não entra na narrativa como ameaça, mas como encanto. As mulheres enlouquecidas com sua dança e com o seu corpo jovial mostram que ele domina o poder da sedução social. Acontece que o Sinistro tem dois lados, ele é bipolar, além de ser filho do bruxo mais famoso da região e ter uma mãe vampira, o filho de Lord Dentada é literalmente um personagem que vive entre dois mundos — magia e vampirismo, prazer e violência, sedução e ameaça, e para piorar a situação; ele vai sequestrar todos os convidados das duas festas  — “os bruxos e a turma do jeans rasgado”, levando-os para uma arena mágica secreta. Essa dualidade é o que o torna um anti-herói, não um vilão puro. Ele pode divertir, encantar e até gerar empatia, mas também possui impulsos perigosos.

Sinistro encanta antes de assustar, e justamente por conta disso, se torna um anti-herói memorável.

 

Textuaria  -  O grupo dos “rebeldes do jeans rasgado” traz leveza e inteligência à narrativa. O que eles representam dentro desse universo mágico?

Kelly -  Cercados pela escassez, os rebeldes do jeans rasgado são uma turma comum de adolescentes do interior, que aprenderam a transformar o pouco em muito. Com roupas simples, e peças jeans, muitas vezes gastas pelo tempo, ou rasgadas, foi o que uniu essa turma que “não escondiam a força de uma amizade”. Acostumados a dividir o que tinham, por vezes um lanche, uma risada ou uma brincadeira e até mesmo segredos, eles encontram alegria nas pequenas coisas do dia a dia: nas conversas demorada na rua, num passeio de bicicleta, nas brincadeiras improvisadas, e nos sonhos que teimam em nascer mesmo diante às dificuldades da vida. Na falta de quase tudo, sobrava algo essencial que dava equilíbrio nessa parte da narrativa: a beleza da Rua das Buganvílias, a certeza de que juntos eram mais fortes, os sorrisos e a felicidade que mora nas coisas mais simples da vida.

 

Textuaria  - O campeonato de magia funciona quase como um jogo psicológico. Você se inspirou em competições, jogos ou narrativas de desafio para estruturar essa parte do livro?

Kelly - Confesso que dediquei mais tempo para escrever a parte do campeonato de magia. Busquei inspiração em competições escolares e esportivas que despertam disputas, alianças e orgulho do grupo. Comecei a pensar em filmes de aventura que eu gostava de assistir com jovens e adolescentes, e o primeiro filme que veio a minha mente foi “Os Goonies” de 1985, outro filme que me inspirou para criar o campeonato foi Labyrinth.  Mas eu queria mais, queria que fosse um campeonato inesquecível, um ritual carregado de tradição, magia ancestral, rivalidade e perigo. Foi então que decidi criar um jogo de RPG e um novo universo, a arena mágica onde acontece um grande evento secreto em que jovens bruxos são convocados a disputar o título de Mestre da Liga da Magia. E resolvi que o Sinistro levaria os convidados das duas festas para disputar junto com os bruxos.

 

Textuaria  - Apesar do caráter fantástico, a obra dialoga muito com o comportamento humano. Até que ponto o real influencia o mágico na sua escrita?

Kelly -  O real influencia o mágico de forma profunda, pois a magia não surge isolada do mundo cotidiano; ela nasce justamente das experiências humanas, sociais e emocionais que compõem a realidade dos personagens.

Os adolescentes, suas amizades, conflitos, desejos de pertencimento e até as desigualdades que os cercam, funcionam como a base concreta do livro Malditos Bruxos. A partir desse chão realista, com personagens inspirados em pessoas reais, a magia entra como um recurso narrativo que amplifica as emoções e conflitos, transformando sentimentos humanos; ambição, inveja, desejo de poder, lealdade e medo em acontecimentos sobrenaturais, com personagens fantásticos, como a turma dos bruxos que são repletos de poderes ancestrais, e a turma dos rebeldes, que são perspicazes. Em Despertar (cidade fictícia) acordar é mágico, O mágico não rompe totalmente com a realidade; ele dialoga e convive com ela.

 

 

Textuaria  -  Você transita entre romance, suspense e fantasia. Como define seu estilo literário hoje?

Kelly - Minha literatura nasce do encontro entre o mistério e a mente humana. Meu estilo mistura suspense sombrio, dilemas psicológicos, elementos multiculturais e fantasia para explorar personagens atravessados por conflitos profundos e por atmosferas de inquietação.

 

Textuaria -  Sua estreia foi com A Monalisa do Sertão em estado de choque, seguida por uma coletânea e agora este suspense fantástico. O que mudou na sua escrita de um livro para o outro?

 

Kelly - Em A Monalisa do Sertão, eu explorei o suspense psicológico a partir de uma experiência profundamente humana: a história de uma personagem marcada por trauma, injustiça e julgamento social. Publiquei um poema: “Coração em chama”, que fala sobre sensibilidade em tempos de guerra, na coletânea Um Teto Todo Nosso da Editora Polifonia. Já em Malditos Bruxos, esses mesmos temas — perseguição, estigmatização e medo coletivo — reaparecem, mas dentro de um universo mais simbólico e fantástico. A magia, nesse caso, funciona quase como uma metáfora para as forças invisíveis que movem o comportamento humano e as estruturas de poder dentro das sociedades.

 Se a Monalisa do Sertão mostra a sensibilidade humana e o retrato da realidade.  Malditos Bruxos revela as tensões, a fantasia e a disputa que envolve a narrativa. De um livro para o outro, mudei a linguagem, o tom narrativo, a temática, os personagens, o conflito e a atmosfera literária.

 

Textuaria - Como sua vivência profissional na comunicação pública contribui para a construção de enredos, conflitos e personagens?

Kelly - A experiência na comunicação pública colocou-me em constante contato com pessoas, situações reais e diferentes dinâmicas sociais. Esse convívio direto com a realidade funciona como um verdadeiro laboratório. Para um escritor, isso é extremamente valioso, porque ajuda a compreender como surgem o medo, a desinformação e as tensões coletivas, elementos fundamentais para construir tramas de suspense, personagens interessantes e atmosferas de tensão.

 

Textuaria  - Que tipo de leitor você imagina ao escrever Malditos Bruxos? Há uma faixa etária ou perfil específico, ou a história é pensada para leitores de todas as idades?

Kelly -  “Malditos Bruxos” é um romance voltado principalmente para jovens e adultos, porque trabalha com suspense psicológico, fantasia e conflitos humanos mais complexos. 14 anos em diante, dependendo da maturidade do leitor. É uma história que dialoga com leitores que gostam de mistério, tensão e reflexões sobre comportamento humano.

 

Textuaria -  O livro deixa a pergunta: “Quem se tornará o mestre da Liga da Magia?”. Para você, o que define um verdadeiro mestre — no livro e fora dele?

 Kelly - Para mim, a ideia de verdadeiro mestre está muito ligada à capacidade de compreender profundamente a natureza humana, e  transformar essa compreensão em narrativa. O mestre é quem consegue transformar o conhecimento em sabedoria.

 

 

Textuaria -  Para finalizar, o que pode nos contar sobre O Mistério da Cabine n.º 21 e o que o público pode esperar dos seus próximos passos na literatura?


Kelly -  Nele temos um passeio de três dias a bordo do vapor, com várias candidatas, seus patrocinadores e influencers que estarão acompanhando as garotas. Todos em busca da coroa de Miss Brasil, em um desfile que promete glamour, fama e reconhecimento. No entanto, à medida que as candidatas embarcam nessa jornada de expectativas, rivalidades e novos laços, o que parecia ser uma experiência onírica logo se transforma em um cenário inquietante. A maior embarcação a lenha do mundo oculta segredos que transcendem as aparências — e todos os caminhos parecem convergir para a enigmática cabine nº 21." Nesse concurso, vencer pode não ser o maior desafio…

Tenho novos projetos em desenvolvimento, mas ainda prefiro manter um certo mistério.


 



 
 
 

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