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As histórias que moram no coração: Tania Moschini e a arte de eternizar afetos

5 de ago.
7 min de leitura

Tania Moschini, autora do livro de contos "Coisas de vó e outras histórias". Arquivo pessoal
Tania Moschini, autora do livro de contos "Coisas de vó e outras histórias". Arquivo pessoal

Por Aniuska Van Helden


Entre lembranças da infância, histórias de família, viagens e momentos compartilhados com os netos, a escritora Tania Moschini transforma memórias em literatura e revela, em Coisas de vó e outras histórias, a beleza dos afetos cotidianos. Professora de Língua Portuguesa durante décadas, revisora e produtora de textos, ela encontrou na aposentadoria a oportunidade de se dedicar integralmente à escrita e dar voz a experiências que atravessam gerações.

Nesta entrevista, Tania fala sobre a construção do livro, a importância da família, a força do humor, a experiência da avosidade e o poder da escrita como forma de preservar histórias, sentimentos e legados. Com sensibilidade e autenticidade, a autora convida os leitores a desacelerar e redescobrir, nas pequenas cenas da vida, aquilo que realmente importa.


O livro pode ser adquirido pelo site da editora Polifonia
O livro pode ser adquirido pelo site da editora Polifonia

TEXTUARIA - Depois da boa recepção do seu primeiro livro, E agora, pra onde?, o que a motivou a escrever Coisas de vó e outras histórias?

Tania - Na verdade, alguns dos textos que compõem o livro “Coisas de vó e outras histórias” foram escritos simultaneamente ao meu primeiro livro. Outros escrevi posteriormente, à medida que aparecia alguma lembrança ou história que eu achasse que valia a pena registrar. A quantidade de textos foi crescendo, até que descobri que eu já tinha um novo livro praticamente pronto.


TEXTUARIA - O título já desperta uma sensação de aconchego e nostalgia. O que representam as "coisas de vó" para você e por que elas mereciam um livro?

Tania -  Registrei episódios vivenciados por mim, junto com minha família, especialmente meus netos, ao longo de anos e que, por um motivo  ou por outro, aquecem minha alma. Gosto de resgatá-los da memória, trazê-los à tona e, principalmente, da ideia de eternizá-los. Para isso, nada melhor do que escrever um livro, para garantir que jamais sejam esquecidos.  


TEXTUARIA - As crônicas transitam entre lembranças da infância, histórias de família, viagens e cenas do cotidiano. Como você escolheu quais histórias fariam parte da obra?

Tania -  Deixei meu coração escolher. Em muitas ocasiões, ao começar a escrever, pensava que seriam desinteressantes, já que diziam respeito só a mim, ou, no máximo, a algum anônimo. Mas, à medida que escrevia, ia tomando gosto e, a partir daí, me perguntava: por que não? No fim, acabava saindo um texto agradável para mim, e era isso que me importava. E a história ganhava um lugar no livro.  


TEXTUARIA - Até que ponto os textos são autobiográficos? Em que momento a memória encontra a imaginação na construção das crônicas?

Tania - Os textos em que me incluo são todos autobiográficos. Os outros, que são escritos em terceira pessoa, podem até conter algum detalhe inserido por mim, para dar vida à estruturação das crônicas. Mas nada que altere o conteúdo das histórias. São absolutamente verdadeiras.


TEXTUARIA - O livro reúne momentos divertidos, emocionantes e também reflexivos. Você acredita que o humor ajuda a preservar e compartilhar as memórias?

Tania - Sem dúvida. O humor deve estar presente em todas as áreas da nossa vida, é um dos combustíveis para a saúde das relações. Com humor, até os problemas, por maiores que sejam, tornam-se mais leves, mais fáceis de enfrentar. Isso sem dizer que uma pessoa bem-humorada é muito mais agradável para se conviver.


TEXTUARIA - A avó ocupa um lugar muito especial na cultura brasileira. Como a experiência da avosidade transformou o seu olhar sobre a vida e sobre a escrita?

Tania - Apesar de não ser aquela avó tradicional, que está sempre à disposição dos netos, que os coloca à frente de todo o resto, sinto que a experiência da avosidade me tornou mais leve,  mais segura. Descobri com meus netos que, além de aprender com eles, tenho muito o que ensinar-lhes, que precisam de mim e, o mais importante, que sou admirada por eles. Isso, apesar de embutir muita responsabilidade,  é imensamente prazeroso. 


TEXTUARIA - Como professora de Língua Portuguesa durante tantos anos, de que forma sua trajetória na educação influenciou sua maneira de contar histórias?

Tania - Eu sempre gostei muito de ler e escrever. Acho que isso, mais do que o ofício de professora, alavancou a vocação de escritora que estava guardada dentro de mim e que só desenvolvi concretamente, após os 60 anos.


TEXTUARIA - Você começou a publicar livros após a aposentadoria. Como foi essa mudança de vida e o que ela representou para sua realização pessoal?

Tania - Como disse na resposta anterior, meu gosto pela escrita sempre me acompanhou. Mas não achava tempo para me dedicar a ela. Fazia alguns registros e os guardava. Meu trabalho no serviço público, minhas filhas, meu marido, meus netos, tudo era prioridade. Apenas depois da aposentadoria encontrei tempo para o que eu considero um dos meus maiores prazeres, o de escrever. E me deliciei e delicio até hoje com isso, cada vez mais. Agora, sim, sinto que estou realizada profissionalmente.


TEXTUARIA - O livro traz personagens e situações com as quais muitos leitores certamente vão se identificar. Você pensou nesse reconhecimento coletivo enquanto escrevia?

Tania - Confesso que não. Os textos foram nascendo a partir das minhas experiências e dos outros, sem nenhuma estratégia literária. Talvez pelo fato de serem histórias reais, sem maquiagem, vividas por pessoas reais, exerçam esse papel de proximidade com o leitor.


TEXTUARIA - Em tempos de tanta velocidade e comunicação digital, qual é a importância de registrar memórias e histórias familiares?

Tania - Não abro mão do registro por meio da escrita. Na minha opinião, esse recurso nunca vai acabar, é insubstituível. Posso estar sendo ingênua, mas não consigo pensar de modo diferente. E a família, ah, essa então não perderá seu lugar nunca. Pelo contrário, as pessoas vão redescobrir o seu real valor. É onde tudo começa e onde tudo termina. 


TEXTUARIA - O prazer de contar "causos" aparece como uma das marcas do livro. Você cresceu ouvindo boas histórias? Quem foram seus grandes contadores de histórias?

Tania - Não tenho grandes lembranças de nada na minha infância que tenha me influenciado nesse sentido. Acho que esse prazer é intrínseco em mim, sinceramente. Eu lia muito, desde pequena, mas eram leituras diversas, não tenho nenhum ídolo específico.


TEXTUARIA - Existe alguma crônica do livro que tenha sido especialmente difícil ou emocionante de escrever? Por quê?

Tania - Sim, mais do que uma. A primeira fala sobre um problema de doença do meu marido que enfrentamos, coincidentemente durante a pandemia; a outra também tem a ver com ele e cita um período difícil no seu trabalho, que  atingiu toda a família. 


TEXTUARIA - Que tipo de sentimento você espera despertar no leitor ao fechar a última página?

Tania - Espero que ele tenha se identificado em alguns momentos, que tenha se distraído dos problemas do seu dia e, sobretudo, que meu livro o tenha divertido. Se tiver arrancado algumas risadas, então, será o melhor de tudo. 


TEXTUARIA - Se pudesse resumir Coisas de vó e outras histórias em uma única palavra, qual seria e por quê?

Tania - Plenitude. Porque é a materialização de um projeto que me devolveu às origens, que me fez valorizar coisas para as quais eu não dava o devido valor e me faz ver que já fiz bastante, mas ainda tenho muito a fazer, principalmente com os meus. 


TEXTUARIA - O livro também pode aproximar diferentes gerações. Você acredita que ele pode incentivar conversas entre avós, pais e netos sobre suas próprias histórias?

Tania - É a minha expectativa. Torço para que meu livro sirva de pontapé inicial para uma boa conversa, uma troca de experiências, quem sabe até alguns embates, se for necessário. Como revisora e produtora de textos,convivemos diariamente com as palavras.


TEXTUARIA -Escrever para os outros e escrever para si mesma são experiências muito diferentes?

Tania - São, claro. No trabalho de revisão preciso respeitar a intenção do autor, o máximo que   posso fazer é sugerir algumas trocas de palavras, por exemplo, para melhorar a qualidade do texto. Não posso extrapolar. Quando escrevo, tenho total comando das minhas palavras. Dou ao texto o tom que eu quero, escolho as palavras de modo que a condução da escrita flua de acordo com meus pensamentos, as minhas ideias. Esse trabalho minucioso, às vezes demorado, de escolha das palavras, é muito prazeroso. Somos só eu e a tela do computador. E sou eu que mando. É libertador.


TEXTUARIA - Você nasceu em Três Passos, no interior do Rio Grande do Sul. As suas origens e a vivência no interior aparecem de alguma forma nas histórias do livro?

Tania -  Sim, com muita frequência. As lembranças são muito vivas na minha mente. E por serem prazerosas, tomei o cuidado de registrá-las, para garantir que minha memória não me traia com o passar dos anos. Agora estou satisfeita, não corro risco de esquecê-las.


TEXTUARIA - O que os leitores podem esperar dos seus próximos projetos literários?

Tania - Neste momento, estou escrevendo a biografia do meu marido, que acabou de fazer 70 anos. Ele teve e tem uma vida muito rica. Ficou órfão aos sete anos, mas isso não o impediu de galgar muitos degraus, até virar homem público, determinado a contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Não me sinto suspeita de afirmar que sua história de vida é inspiradora. E eu, como testemunha privilegiada da maior parte de sua jornada e uma contadora de histórias insaciável, não quero deixar passar a oportunidade de registrar a dele. 



TEXTUARIA - Se você pudesse convidar os leitores para conhecer Coisas de vó e outras histórias em poucas palavras, o que diria?

Tania - Vou pedir que reservem um tempinho à noite, antes de dormir, para o meu livro. São histórias leves, curtas, que, no mínimo, vão distraí-los dos problemas que porventura tenham enfrentado no seu dia. Podem ler uma, duas histórias, no seu ritmo e no seu tempo. Acho que não irão se arrepender. 


 
 
 

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