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Mulheres de Plástico: o peso invisível de ser moldada

17 de jun.
3 min de leitura
Elenco: Carini Pereira, Clarissa Gomes, Consuelo Vallandro, Débora Rodrigues e Graziela Silveira
Elenco: Carini Pereira, Clarissa Gomes, Consuelo Vallandro, Débora Rodrigues e Graziela Silveira

A palavra plástico tem origem no grego antigo plastikós (πλαστικός), que significa "capaz de ser moldado" ou "próprio para modelar". Seu ingresso em nossas vidas — especialmente na vida das mulheres — ganhou força nos anos 1950. Naquela época, esposas e donas de casa acreditavam que também deveriam ser moldadas e que essa era sua vocação.


Ainda não sabiam que a autenticidade, a autonomia e a capacidade de pensar são inerentes a todos os seres humanos. Poucas podiam imaginar que tinham o direito de escolher seus próprios caminhos. As raras exceções eram classificadas como mulheres extraordinárias — ou seja, mulheres fora da ordem estabelecida.


O espetáculo Mulheres de Plástico, da GEDA Cia. de Dança, dirigida e coreografada por Maria Waleska Van Helden, atravessa o público como uma faca no coração ao retratar a realidade de sete décadas atrás: mulheres esposas, prendadas, dedicadas aos maridos, submissas e boas cozinheiras. A alegria estava em ganhar a primeira máquina de lavar ou receber algum dinheiro do marido para ir ao cabeleireiro. E, claro, em preencher as prateleiras da cozinha com tupperwares, sacolas e utensílios plásticos, embalados pela promessa de durar mais de 400 anos.


A obra pulsa em cada detalhe. O cenário, composto por inúmeras garrafas PET que remetem a contêineres de lixo, e os figurinos brancos ressaltam tanto a transparência do plástico quanto a invisibilidade feminina. Os cabelos inspirados nos anos 1950, perucas brancas em corte chanel, dançam junto às cinco intérpretes.


Elas se movimentam sobre um linóleo que reproduz o piso xadrez, em preto e branco, típico das cozinhas da época. Ao fundo, metros de plástico e sacolas transformam-se em cortinas que acompanham o ritmo da coreografia.


O espetáculo ganha contornos ainda mais contundentes quando projeta dados sobre o número alarmante de feminicídios no Rio Grande do Sul e no Brasil. A denúncia é clara: se hoje as mulheres decidiram se impor e falar, para silenciá-las, muitas vezes, recorre-se à violência extrema e à morte.


Somente nos primeiros seis meses deste ano, 39 mulheres foram mortas no Rio Grande do Sul por serem mulheres, uma média aterradora de 6,5 mortes por mês, espalhadas por diferentes regiões do estado.


Números e imagens de mulheres de diferentes épocas, cujas vozes foram caladas gritam no fundo do palco. As bailarinas dançam e rastejam sob o peso imposto pela estrutura machista: desejos proibidos, livros escondidos, filhos que carregam mães, louças para lavar, sorrisos forçados, vestidos permitidos, sonhos impossíveis, roupas para estender  e talentos desperdiçados.


Algumas alegorias surgem de forma sutil, mas marcante. Entre elas, destaca-se a referência à escultura A Pequena Bailarina de Quatorze Anos, de Edgar Degas, artista reconhecido como um dos grandes nomes do impressionismo, mas frequentemente apontado como misógino em seu tempo.


Mulheres de Plástico não rompe apenas a bolha do machismo escondido em cada esquina ou em algum cômodo de nossas casas; escancara uma realidade muito anterior ao próprio plástico. Basta pensar nas inúmeras narrativas sobre a origem da humanidade: Eva estava sozinha entre Adão e seus filhos machos, Caim e Abel. E o restante dos seres humanos? Como vieram? 

As perguntas são muitas. O trabalho da GEDA Cia. de Dança talvez ofereça uma das respostas possíveis: revelar, por meio da arte, as dores de ser mulher.


O espetáculo teve a estreia nos dias 5 e 6 de junho, no Espaço Stravaganza em Porto Alegre. Próxima temporada em breve.


 
 
 

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