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Quando a escrita floresce: ciência, educação e recomeços

2 de jul.
10 min de leitura
Claudia com o primeiro romance "Próxima Aula"
Claudia com o primeiro romance "Próxima Aula"

Da Botânica à literatura, Claudia Vecchi-Annunciato percorre caminhos que têm em comum a observação, a curiosidade e o cuidado com o outro. Depois de uma carreira dedicada ao ensino de Ciências, encontrou na escrita um espaço de reconstrução e criação. Nesta entrevista, compartilha reflexões sobre educação, literatura infantil, formação de leitores e o poder das histórias para transformar vidas.


Você tem uma formação acadêmica bastante sólida na área de Ciências. Em que momento percebeu que a educação seria o seu principal caminho profissional?


No ano de 2002, um pouco antes de concluir meu doutorado, tive a oportunidade de atuar em um projeto de formação de professores no estado do Maranhão. Ao conviver com professores tão dedicados em uma realidade tão vulnerável, senti que aquele era o meu ponto de virada. Percebi no coração que eu seria mais útil atuando na educação básica.

Quando voltei para São Paulo, trabalhei em projetos de formação de professores com a revista Ciência Hoje das Crianças. Fui professora da educação básica e vivenciei a realidade de uma escola que atendia quase 500 alunos por ano/série. Depois, atuei como supervisora de projetos e programas educacionais, principalmente voltados para ciências e meio ambiente.

Também fui coordenadora educacional da área de Ciências da Natureza, trabalhando tanto com professores polivalentes dos anos iniciais do Ensino Fundamental quanto com professores especialistas de Ciências nos anos finais, além de Biologia, Química e Física no Ensino Médio. Tive a chance de dialogar e trocar experiências com professores, coordenadores e diretores de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal. Conheci escolas em diferentes contextos de vulnerabilidade e elaborei sequências didáticas para apoiar o desenvolvimento de aulas de Ciências da Natureza mais divertidas e investigativas.

Bom, acho que me estendi. Resumindo: se tenho uma sólida carreira ela foi alicerçada na Botânica e construída na Educação, sempre voltada para o ensino científico e fundamentada no respeito aos professores e aos alunos.

 

Como a Botânica, sua área de especialidade, influencia a sua forma de olhar o mundo e também de ensinar?


O olhar botânico vai muito além da formação básica em Biologia. Não é raro ouvir de graduandos em Ciências Biológicas que a Botânica é difícil, cheia de nomes e classificações. No entanto, as plantas são muito mais do que nomenclaturas ou normas para quem realmente as observa. Elas são mais do que alimento, fornecedoras de oxigênio ou base de toda a vida no planeta: são fonte de inspiração para a criatividade humana. Pintores, escritores e artistas, há milhares de anos, se recolhem ao verde clorofiliano para sentir o verdadeiro aconchego da mãe-terra. Resumindo como diz a Profa. Dra. Rosy Isaias da UFMG “Sem plantas não dá!”

 

Sua atuação na educação básica envolve desde a produção de materiais até a elaboração de avaliações. O que você considera essencial para tornar o ensino de Ciências mais significativo hoje?

 

Respeito aos profissionais, formação básica e formação em serviço de qualidade. Quando uma professora ou um professor entra na sala de aula, existe muito trabalho invisível antes e depois daquele momento. Mais do que aquilo que se aprende na universidade, cada turma e cada aluno são um mundo a ser descoberto, compreendido e ajudado a aprender como aprender. A exaustão física e mental de muitos profissionais é desconsiderada — e, infelizmente, às vezes até ridicularizada.

 

Quais são os principais desafios que você enxerga atualmente na sala de aula, especialmente no ensino de Ciências e Biologia?


Um dos principais desafios está em equilibrar o excesso de informações disponíveis com a capacidade real dos estudantes de compreender, analisar e aplicar esse conhecimento. A professora e o professor de hoje atuam como curadores, contextualizadores e mediadores para que o “mundo” realmente faça sentido para crianças e adolescentes.

Depois da seleção dos conteúdos, a contextualização exige conhecer o interlocutor. Mesmo que o “conteúdo” seja o mesmo, as turmas e cada um dos alunos não aprendem da mesma forma — e, quando isso é ignorado, chegamos ao cenário de estudantes desmotivados. Por isso, é fundamental que os docentes contem com equipes gestoras preparadas, capazes de antever problemas e apoiar o pleno desenvolvimento dos estudantes. A escola deve funcionar como no ditado africano: “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. Cada educador precisa saber claramente o seu papel, a fim de mitigar problemas e propor soluções palpáveis.

Um bom exemplo é a alfabetização científica. Não basta decorar conceitos; é preciso desenvolver a capacidade de interpretar dados, compreender evidências, argumentar e identificar pseudociências e fake news. Isso exige práticas investigativas, experimentação e diálogo. Tudo se torna muito difícil quando o professor está sobrecarregado com tarefas que impedem um verdadeiro planejamento estratégico para a sala de aula.

Se fosse possível simplificar, eu diria que o desafio está mais no contexto do que nos próprios objetos de estudo das Ciências e da Biologia.


 

 

 Escrita e ressignificação pessoal

Sua entrada na literatura aconteceu após um momento muito marcante da sua vida. Como a escrita contribuiu para esse processo de reconstrução?

A escrita entrou na minha vida justamente quando tudo parecia ter sido arrancado do lugar. Depois da mastectomia, da quimioterapia e da radioterapia, eu precisei aprender a viver um dia de cada vez — algo completamente novo para alguém sempre acelerada. A fadiga do tratamento me obrigou a desacelerar, a ouvir o corpo, a respeitar o tempo. Quando finalmente consegui voltar a ler, senti uma vontade quase instintiva de escrever. E foi aí que um conto tímido surgiu, abrindo uma fresta para uma nova forma de existir.

 

Escrever foi, para mim, um caminho de reconstrução. Não apenas reconstrução física, mas emocional e identitária. A escrita me devolveu movimento, curiosidade, alegria e, principalmente, sentido. Ela me permitiu transformar dor em criação, silêncio em voz e fragilidade em potência. Foi como encontrar um rio novo correndo dentro de mim — daqueles que os elefantes de Mogli abririam com suas presas, abrindo caminhos para uma floresta inteira renascer.

 

O que mudou na sua forma de ver a vida — e talvez a própria educação — depois dessa experiência com o câncer de mama?

O câncer me ensinou a desacelerar e a olhar para a vida com mais delicadeza. Antes, eu vivia no ritmo da urgência; depois, passei a viver no ritmo da presença. Isso mudou tudo — inclusive minha forma de ver a educação. Percebi que, assim como eu precisei de tempo para me reconstruir, os estudantes também precisam de tempo para aprender, para errar, para se reconhecerem no processo.

 

A experiência me fez enxergar que a educação não pode ser uma corrida. Ela precisa ser um espaço de cuidado, de escuta, de humanidade. Hoje, valorizo ainda mais o trabalho invisível dos professores, a importância das relações e o poder transformador da sensibilidade. A doença me tirou muito, mas me devolveu uma visão mais ampla e mais generosa do que significa ensinar e aprender.

 

Você se lembra do momento em que percebeu que escrever não era apenas um processo pessoal, mas também algo que gostaria de compartilhar com o mundo?


Sim. Foi quando mostrei meu primeiro conto para pessoas queridas — a Lúcia Rodrigues e o Edson Lanzoni — e recebi deles não apenas elogios, mas um tipo de reconhecimento que eu não esperava. Eles viram algo em mim antes mesmo de eu ver. Aqueles sorrisos de encorajamento foram decisivos. Foi ali que percebi que a escrita não precisava ficar guardada, que ela podia ganhar o mundo, encontrar outras pessoas, tocar outras vidas.

Esse momento me levou à Escola de Escritoras, à turma das Hildas, à Débora Porto — e, a partir daí, tudo se abriu. Publicar meu primeiro conto, depois meu primeiro livro, depois os infantis, o romance, e finalmente me tornar editora-chefe… tudo começou naquele instante simples em que alguém me disse: “você tem jeito para isso”. Foi quando entendi que escrever não era só meu — era algo que eu queria dividir.


Produção literária e diversidade de gêneros

Sua estreia foi com contos, mas hoje você transita entre literatura infantil, romance e coletâneas. Como você escolhe o gênero de cada obra?


Durante as aulas na Escola de Escritoras, algo muito significativo para mim foi aprender a deixar as mãos em movimento. Desde então, escrevo todos os dias — nem que seja um parágrafo, um conto, um miniconto ou apenas uma ideia solta. É assim que as histórias começam a surgir.

Quando tenho dias atribulados, ou estou na sala de espera do hospital entre uma consulta e outra, digito no bloco de notas do celular. Algumas ideias se materializam rapidamente; outras ficam guardadas ali, esperando o momento certo. Quando tenho tempo, trago tudo para o computador, organizo, reviso e começo a estruturar.

A escolha do gênero acontece de forma muito natural: ela nasce do interesse em concluir uma ideia. Algumas pedem o formato de conto, outras se desdobram em romance, e há aquelas que simplesmente pedem para virar literatura infantil. Eu apenas sigo o caminho que cada história aponta.

 

Seus livros infantis têm uma linguagem leve e imaginativa. Como é o seu processo criativo ao escrever para crianças?

 

Meu processo criativo começa com o movimento — e com atenção. Como eu disse, minhas mãos estão sempre em ação, mas meus olhos também. Sou uma pessoa urbana, então aprendi a encontrar vida nos detalhes: as minúsculas flores que nascem nas frestas das calçadas, uma florada inesperada de ipê, algumas folhas balançando em uma árvore indicando que “tem alguém ali”, e milhares de pequenos etcéteras que poderiam me fazer falar sem parar. Esses detalhes são fontes inesgotáveis de inspiração.

Quando escrevo para crianças, deixo que essa observação do cotidiano se misture com imaginação. Não começo pensando no gênero ou na estrutura; começo pensando no encanto que a experiência me trouxe e apenas sigo o caminho que a história aponta.

 

Em “Próxima aula”, você dialoga diretamente com o universo educacional. Até que ponto a ficção permite dizer o que a realidade, às vezes, não consegue?

 

A ficção permite reunir, em poucas páginas, aquilo que na vida real aparece de forma pulverizada ao longo de muitos anos. Em Próxima aula, a história da Joana concentra dores, afetos, conquistas, esperanças, amizades e fraquezas que, no cotidiano escolar, surgem de maneira fragmentada e muitas vezes silenciosa. A literatura possibilita viver intensamente a vida de outra pessoa em um período curto de tempo — e isso abre espaço para dizer o que, na realidade, às vezes não cabe ou não pode ser dito.

 

No livro, existem aspectos educacionais que são absolutamente reais, vividos por muitos professores, e outros que eu gostaria muito que fossem a realidade de todas as escolas. A ficção me permite transitar entre esses dois mundos: o que existe e o que ainda sonho que exista.


Existe um fio condutor que conecta todas as suas obras, mesmo sendo de gêneros diferentes?

Não tenho um fio condutor temático. Mas minhas obras tem em comum curiosidade, humanidade e o ambiente natural.


Literatura infantil e formação de leitores

O que você acredita que a literatura infantil pode despertar nas crianças que outros formatos não conseguem?


A literatura infantil oferece algo que nenhum outro formato entrega da mesma maneira: a possibilidade de a criança construir um mundo próprio a partir da história. Enquanto lê — ou escuta alguém lendo — ela não recebe todas as imagens prontas podendo cria as suas. É um exercício silencioso e poderoso de imaginação ativa.

 

Em um mundo cada vez mais digital, qual o papel dos livros na formação sensível e crítica das crianças?


O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – reforça que toda criança tem direito à cultura, à informação e aos meios que garantam seu desenvolvimento pleno – sensível, intelectual e social. Nesse sentido, os livros vão muito além do entretenimento: eles são instrumentos de garantia de direitos.

Quem já teve a oportunidade de observar o comportamento das crianças em rodas de leitura sabe bem do que estou falando. Elas ouvem com atenção, participam da história, comentam, relacionam o enredo com situações do próprio cotidiano, desenham sobre o que ouviram e, enfim, vivenciam profundamente a experiência que a narrativa lhes proporcionou.

 

Seus livros trazem um olhar lúdico sobre o cotidiano. Isso tem relação com sua experiência como educadora?


Também, mas principalmente com a minha criança interior. Acho realmente divertido quando vejo uma flor rodopiando como uma bailarina ao cair da árvore ou quando me deparo com uma joaninha abrindo as asas para voar, toda desengonçada. Como bióloga, eu poderia enquadrar essas cenas em padrões normais; como escritora, sei que são momentos extraordinários.


 Escrita coletiva e valorização feminina

Você também participa de coletâneas e projetos coletivos. O que essa experiência de escrita compartilhada representa para você?


Desde o início, antes mesmo de entrar na Escola de Escritoras, eu já desejava fazer parte de coletivos femininos. Estar com outras mulheres e com suas histórias é algo profundamente engrandecedor. Hoje sou membro da AJEB – Associação de Escritoras e Jornalistas de São Paulo –, da Comunidade das Escritoras e também madrinha do Projeto Meninas na Escrita, os dois últimos idealizados pela escritora Débora Porto.

Vejo como algo muito positivo. Há escritoras maravilhosas que finalmente começam a fazer parte do conhecimento do grande público, e tantas outras novas vozes surgindo com potência e originalidade. Mas, para além da visibilidade, o que mais me anima é perceber que a escrita feminina está deixando de ser tratada como nicho e passando a ser reconhecida como parte essencial da literatura brasileira.

Esse movimento não é apenas sobre publicar mais mulheres; é sobre permitir que experiências, sensibilidades e perspectivas historicamente silenciadas ocupem o espaço que sempre lhes foi devido. Quando mulheres escrevem — e são lidas — ampliamos o repertório do que pode ser dito, sentido e imaginado. E isso transforma não só a literatura, mas também a forma como entendemos o mundo.

 

 Há algo diferente na forma como as mulheres têm ocupado o espaço literário contemporâneo?


Nós mulheres temos ocupado o espaço literário com muita luta, mas com esperança. Gosto de participar de grupos de escrita e leitura e de partilhar ideias e vivências com outras escritoras. É muito interessante trocar experiências sem a necessidade de performar o tempo todo. Esses espaços geram movimentos genuínos de troca, como se cada uma abrisse uma porta e oferecesse a mão para que a próxima pudesse passar.


 Olhar para o presente e futuro

O que ainda te inquieta — como educadora e como escritora — e que talvez se transforme em novos livros?


Ainda me considero uma escritora em desenvolvimento, por isso não tenho planos ambiciosos. Gosto de materializar ideias em histórias e tenho a esperança de que elas encantem e sejam lidas por pessoas que se identifiquem com o que escrevo.

 

Que tipo de impacto você espera causar nos leitores, sejam crianças ou adultos?


Gosto particularmente quando me escrevem dizendo que não conseguiram parar de ler ou que se identificaram com um ou outro aspecto da história, mas, principalmente, quando mencionam que passaram a pensar de forma diferente sobre algo.

Nas crianças, gosto quando riem, lembram de frases ou me pedem para escrever sobre um bicho ou uma planta em específico, porque entendo que isso significa que elas querem ler mais.

 

 

Quais são seus próximos projetos ou sonhos literários?


No momento, estou nos “finalmentes” de dois livros: “O Procrastinador”, um thriller irreverente que ironiza a ideia de ter todo o tempo do mundo para ler, e “Miramar”, um conto de fadas moderno que mistura animais e plantas da rica biodiversidade brasileira com reflexões sobre as necessidades humanas na busca pela própria identidade.


 Os novos livros da autora já estão em pré-venda pelo site da editora Polifonia:

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2 comentários

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Edson Lanzoni
02 de jul.
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Acompanhei parte do processo de escrita da Claudia. Já no começo, sabia da relevância do que ela estava propondo. Amo.

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Márcia Meninato
02 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sou fã da Cláudia Vecchi, tenho todos os seus livros adultos e infantis. Mas o meu queridinho é o próxima aula, que me leva direto para as memórias da escola em que trabalhava. Ela é D+!

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